O perfil dos ingressantes de engenharia florestal mudou: seria preciso nos adaptarmos?


E se você – profissional da área florestal – soubesse que o perfil dos ingressantes, e, portanto, dos futuros egressos, está em pleno processo de mudança? Há políticas nas esferas pública ou privada a serem adotadas ou “as coisas se ajeitam”?

Em em levantamento recente feito por nossa equipe da Associação dos Ex-Integrantes do Grupo Florestal Monte Olimpo (AEI-GFMO) mostra que o perfil do ingressante no curso de engenharia florestal da ESALQ/USP, no período de 2002 a 2017, vem claramente mudando ao longo do tempo. Algumas mudanças merecem o destaque nesse editorial, com o objetivo de chamar a atenção do meio e gerar as devidas discussões.

A primeira grande alteração do perfil é sobre gênero. Abre parênteses: não entraremos no mérito da representatividade dos dois gêneros (feminino e masculino) propostos no levantamento feito pela universidade e compilado por nós. Fecha parênteses. Em 2002, 71% dos ingressantes eram do gênero masculino. Esse valor foi progressivamente mudando com o passar dos anos e em 2017 o valor foi de 43%. Seria isso um ajuste social de uma área que historicamente foi dominado por homens ou realmente um preferência das mulheres pela área?

Outra grande alteração é em relação à procedência dos alunos, ou seja, a cidade de origem. Se em 2002 cerca de 25% dos alunos vinham da capital do estado ou da região metropolitana, em 2016 passou a ser 40% dos estudantes. Se é verdade que o acesso às atividades ao ar livre e contato com o campo é reduzido quando se vive em grandes centros (Gehl, 2013), o que “a mais” estamos fazendo por esse aluno? Aliás, é preciso fazer algo a mais?

A maior transformação, no entanto, talvez tenha sido na esfera sócio-econômica, que não deixa de estar associada aos dois itens já apresentados. Em 2002, 75% dos pais dos ingressantes possuíam cursos de graduação ou pós-graduação. Já em 2016, esse percentual foi de 48%. Por outro lado, aumentou o percentual de pais com o nível ginasial e colegial, que em 2002 era de 3 e 20%, respectivamente. No final da série, em 2016, esse valor foi de 11 e 31%, mostrando uma evidente mudança de perfil dos pais, com menos tempo de estudo ao longo do tempo.

Esse resultado influencia também a renda média da família, uma vez que a renda está – em média – diretamente ligada ao nível de escolaridade (Fundação Getúlio Vargas, 2008; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2010). No presente estudo, nos primeiros cinco anos do levantamento 32% dos pais tinham renda superior a 12 salários-mínimos. Esse percentual decresceu gradativamente chegando a 14% dos pais. A tendência contrária confirma a mudança do perfil, com 0% dos pais possuindo uma renda de entre 1 e 3 salários-mínimos em 2002 para 24% em 2016.

O aumento, a partir de 2014 e notadamente em 2016, do percentual de negros e pardos, é reflexo da participação da ESALQ no Sistema de Seleção Unificada (SISU) a partir desse ano. O resultado de 19,5% é superior inclusive que a média da Universidade de São Paulo, com 17,1% das vagas ocupadas por pessoas de pele negra e parda.

Esse resultado está diretamente ligado ao resultado do local de realização do ensino médio, se público ou privado. Desde 2014 é crescente o ingresso de alunos advindos do ensino público, que possui em sua maioria, alunos de origem negra ou parda (PNAD, 2013). É objetivo da USP ter em seu corpo discente 50% dos alunos advindos de escolas públicas. Esse perfil tem mudado drasticamente durante o período estudado, passando de cerca de 80% advindos de escola privada no início da série para os atuais 46%.

Há outras informações, que ficarão para um próximo editorial, mas resumindo o que temos até aqui: quando comparados àqueles de 2002, os ingressantes atuais do curso de engenharia florestal da ESALQ/USP possuem um maior equilíbrio de gênero, originam-se de famílias de menores tempo de estudo e poder aquisitivo, advém de grandes cidades e estudaram mais em escolas públicas. Ainda não tocamos aqui em mudanças comportamentais (geração x, y, z, etc), que pode ser pauta para outro editorial.

Fica a pergunta: é preciso que algo seja feito para recebermos os profissionais com esse “novo” perfil? Ou automaticamente “as coisas vão se encaixando”? Professores, orientadores, recursos humanos, gestores: estamos percebendo essas mudanças? Ou, como muitas vezes ouvimos por aí, ficaremos falando que “antes o aluno era isso e aquilo” ou “o perfil mudou, a molecada está cada vez etc, etc”? Pensemos e levemos uma discussão saudável em frente! Em frente AEI!


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